O céu de novembro cobria o Ribatejo com tons cinzentos no dia 13, como se antevisse a tragédia que se aproximava. Era mais um dia comum na vida da família Ribeiro Telles Caldeira, uma das famílias mais respeitadas no meio tauromáquico português. Graça Ribeiro Telles Caldeira, filha do cavaleiro tauromáquico João Ribeiro Telles, saía com os seus filhos — cinco no total — em direção a uma rotina como tantas outras. Nenhum deles imaginava que, naquela tarde, a vida daria uma reviravolta tão profunda que deixaria marcas impossíveis de apagar.
A estrada nacional 119, que atravessa os campos de Coruche, foi palco de um dos acidentes mais dolorosos do final do ano de 2024. O carro em que seguiam perdeu o controlo por razões ainda não totalmente esclarecidas, acabando por colidir com dois veículos e capotar violentamente. O resultado foi devastador: Vicente, o mais novo, com apenas dois meses de vida, não resistiu aos ferimentos. As quatro irmãs — Assunção, Carmo, Amélia e Graça, com idades entre os seis e os nove anos — sofreram lesões de diversas gravidades. A mãe ficou gravemente ferida.
O país ficou em choque. A comunidade taurina chorou. Os jornais destacaram a dimensão da tragédia e a sua ironia cruel: uma família dedicada à festa brava, onde o risco é parte da vida, foi golpeada não na arena, mas numa estrada qualquer, num momento banal. E, no entanto, foi aí que começou uma outra história — não a do luto, apenas, mas a da luta. E dessa história, a pequena Graça tornou-se símbolo e protagonista.
Graça, uma das gémeas de seis anos, ficou paraplégica. O acidente causou uma lesão grave na sua medula espinhal. As primeiras notícias eram duras de ler, quanto mais de viver. Os médicos foram cautelosos desde o início. A esperança de voltar a andar era mínima. O corpo frágil da criança, contudo, tinha algo que a medicina não mede facilmente: uma vontade silenciosa, uma capacidade de resistência que ninguém espera ver numa menina tão nova. Ainda assim, o diagnóstico mantinha-se sombrio.
Nos primeiros meses, a reabilitação deu-se no hospital. Depois, Graça foi transferida para o Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, referência nacional no tratamento de lesões da coluna. Ali, entre sessões de fisioterapia intensiva, lágrimas e sorrisos tímidos, Graça começou uma nova etapa — não de cura, necessariamente, mas de adaptação. A cada dia, tentava compreender um corpo que deixara de responder-lhe da forma habitual. O que para outras crianças era natural — correr, levantar-se, subir degraus — tornou-se, para ela, um desafio quase mitológico.
A mãe, também em recuperação, nunca deixou de estar presente. Graça Ribeiro Telles Caldeira, marcada fisicamente e emocionalmente, fez da sua dor uma força para apoiar as filhas. O pai, João Vicente Caldeira, tornou-se a voz da esperança nos meios de comunicação. Em declarações, partilhava o que poucos têm coragem de admitir: o risco da filha nunca voltar a andar é real. Mas acrescentava sempre algo mais forte — “nada é impossível”. E era essa frase, repetida como um mantra, que ecoava nos corredores de Alcoitão.
Enquanto isso, as outras irmãs também trilhavam os seus próprios caminhos de recuperação. Carmo, de sete anos, chegou a estar também em cadeira de rodas, mas tem mostrado sinais mais rápidos de evolução. As gémeas Graça e Amélia, no entanto, tiveram percursos bem diferentes. Amélia regressou à escola, retomou brincadeiras, recuperou a rotina. Graça, por sua vez, permaneceu nos bastidores da normalidade, enfrentando sessões diárias, injeções, exames, lágrimas e momentos de frustração. Mas também momentos de riso, quando conseguia movimentar um braço com mais facilidade, ou quando recebia a visita de um terapeuta vestido de palhaço.
Assunção, a irmã mais velha, de nove anos, tornou-se uma espécie de pilar silencioso. Com a maturidade precoce dos que crescem em meio à dor, ajudava nas tarefas simples e dava colo aos irmãos mais novos. A ausência do pequeno Vicente, por sua vez, pairava sobre todos como um silêncio sagrado. A família, embora grata pelas vidas salvas, vivia com o peso de uma ausência que nenhuma fisioterapia podia resolver.
A comunidade de Coruche e de todo o país uniu-se. Foram organizadas missas, campanhas de apoio, recolhas de fundos. Amigos, conhecidos e desconhecidos enviaram mensagens, brinquedos, livros. No funeral de Vicente, estiveram presentes figuras públicas, cavaleiros tauromáquicos, aficionados, vizinhos e muitas crianças. A cerimónia foi marcada pela dignidade e pela emoção. A dor da perda deu lugar, por instantes, à solidariedade.
No entanto, como toda família marcada por tragédias sabe, o mundo não para. As contas continuam a chegar. Os tratamentos têm prazos. Os dias em Alcoitão, por exemplo, estão limitados a 60. Depois, a família terá de encontrar uma solução alternativa, talvez uma clínica privada, ou cuidados em casa, que exigem recursos, tempo e força emocional. E aí reside outra luta, menos visível, mas igualmente exaustiva: a batalha contra a burocracia, contra os custos, contra a realidade fria de um sistema de saúde sobrecarregado.
Mas a família Ribeiro Telles não se rende. A dor transformou-se em união. Os pequenos gestos — como um desenho feito por Graça com a ajuda de um terapeuta ocupacional — tornaram-se vitórias. As palavras simples da criança, como “consegui mexer um pouco mais hoje”, ecoam nos corredores como hinos. A mãe, sempre firme, repete: “Somos uma família de fé. E temos de continuar a lutar por ela, pela Graça, por todos.”
Nas redes sociais, muitos pedem que o Estado acompanhe mais de perto casos como este. Afinal, trata-se de uma criança que, antes da tragédia, tinha uma vida ativa, cheia de sonhos, que brincava, que dançava. E agora? Será deixada à margem? Os pedidos de apoio vão além do lamento. Há quem proponha fundos específicos, outros sugerem legislação mais abrangente para vítimas infantis de acidentes rodoviários.
Enquanto o país reflete sobre isso, Graça continua a sua jornada. Aos poucos, aprende a desenhar com a boca, a escrever com a ajuda de suportes. Os terapeutas apontam avanços, embora pequenos. A esperança, como bem disse o pai, não pode ser medida apenas por exames. Há algo na determinação daquela menina que transcende a medicina.
Neste momento, a casa da família Ribeiro Telles é ao mesmo tempo um santuário de saudade e um campo de batalha pela vida. Ali, entre memórias e fisioterapia, vive-se um dia de cada vez. A televisão muitas vezes está desligada. A música toca baixinho. Os brinquedos permanecem no chão, e cada um deles conta uma história. As fotografias espalhadas pelas paredes não deixaram de mostrar Vicente, o bebé sorridente que, embora ausente, continua presente em tudo.
A luta de Graça é silenciosa, mas poderosa. A sua história tornou-se símbolo de resiliência para muitos. Crianças em situações semelhantes, famílias devastadas por acidentes, profissionais de saúde — todos veem nela uma inspiração.
E talvez seja isso que fique deste capítulo tão doloroso: a capacidade humana de continuar. De se reconstruir, ainda que em novas formas. De encontrar beleza na superação diária. A dor, por mais profunda que seja, não anula o amor. Pelo contrário: torna-o ainda mais visível, mais urgente, mais real.
Graça Ribeiro Telles Caldeira não é apenas uma menina num hospital. É uma guerreira num campo de batalha invisível. Uma criança que, mesmo sem dar passos, avança todos os dias. Uma heroína de olhos doces, que carrega nas costas não o peso de uma tragédia, mas a força de uma família inteira. E enquanto houver um sopro de esperança, os Ribeiro Telles continuarão a caminhar com ela.
